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O que Mandela tem a ver com o futebol?

19/12 Nenhum Comentário

22-09-2013-12-09-04-responsabilidade-de-assumir-o-fla-nao-intimida-jayme-de-almeida

* por Rodrigo Eiras

No ano em que perdermos um dos maiores ídolos mundiais ainda vivo, temos o Flamengo como campeão da Copa do Brasil 2013.

E daí?

Não vou focar no meu desgosto por esse título do Flamengo, que, como bom nordestino e rubro-negro pernambucano, torci loucamente para que não acontecesse. Tirando a rivalidade, uma figura do elenco do rubro-negro carioca me chamou a atenção. E não foi Hernane ou Paulinho.

O nome dessa figura, que nacionalmente está sendo reconhecido por “dar jeito na casa” é Jayme de Almeida. Diferente de todos os outros técnicos do Brasil, com a exceção de um ou de outro,  Jayme tem a personalidade igual ao o que ele aparenta ser.

Vindo da casa, o “tapa-buraco”, como diria Arnaldo Bloch, veio um pouco tímido, falando baixo, um pouco sem moral; afinal de contas, ele é da casa.  Por que falar alto se ainda não se mostrou digno ou capaz à isso? Tem que ser assim, humilde, quietinho, com poucas palavras, conquistando respeito. Seu salário não deve ser essas coisas todas, bem menor que qualquer outro jogador do elenco: Mais outro motivo pra não falar muito e ser humilde. Afinal de contas, ele representa a humildade. Seu devido lugar é este, o seu único lugar de direito, é exatamente, a humildade.

Deu sorte. Jayme caiu no gosto do elenco e da torcida. Time do povo merece um técnico do povo! Ajustou o time e, apesar da má campanha no brasileirão, sagrou-se campeão da Copa do Brasil e ganhando vaga na libertadores do próximo ano. Só alegria, né, não?! Mas calma… Ele lembra muito um interino de 2009… Qual era o nome dele mesmo? Quase que não lembro: Andrade! Grande campeão de 2009, ajeitou a casa e foi campeão brasileiro. Mas peraí, onde é que ele tá trabalhando agora?

Atualmente, Andrade treina o São João da Barra, que joga pela segunda divisão do carioca. Assim como Andrade, Jayme ocupou a vaga de um treinador “vitorioso”, branco e de olhos azuis. Este, no caso, foi Mano Menezes. Em 2009, Andrade teve a mesma oportunidade: substituir um técnico “vitorioso”, branco e de olhos azuis, dessa vez, ao invés de gaúcho, um paranaense, Cuca.

Já não bastasse nossa política “padrão Fifa” classista e racista de ser, com arenas que cada vez mais embranquecem o futebol brasileiro, cada diretoria no Brasil reproduz o racismo diário presente em todas as esferas e camadas sociais de nossa realidade. Negro só é bom com bola no pé. Já a prancheta fica nas mãos de brancos.

Gostaria de ver quando técnicos negros terão oportunidade de trabalho, e aos poucos que já conquistam este direito, não carregassem o estigma de “exceção” ou “tapa-buraco” do clube.

Ah, mas vão dizer: “Futebol é efêmero!”.

Pode até ser. O que não é efêmero são as nossas marcas que continuam latentes e presentes desde muito antes da abolição escravocrata.

O tapa buraco tem cor em nosso país. E não é só no futebol. É só dar uma olhadinha nos tantos humildes que temos por aí. Que falam baixo, que ganham pouco e que logo após um período de reconhecimento, são mandados embora.

Fragmentos de uma vitória

26/11 Nenhum Comentário

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* por Mauricio Targino

São Paulo, 24 de novembro de 2013, 4 da tarde

Sebastian Vettel fechou a temporada da F1 vencendo a nona seguida, Mark Webber se despediu pilotando sem capacete e tomando vento frio na cara e eu preciso ir ao mercado. Aliás, não preciso. Mas vou mesmo assim. Dane-se.

Andando sob a garoa, óculos de sol, camisa do Sport, calça de agasalho e chinelo, pensando no que escrever, só de boréstia. Vejo o cachorro da vizinhança solto na rua, de coleira e corrente arrastando, e sua dona, uma velhinha de bengala na mão, tentando pegá-lo de volta e atravessando a rua. Um filho da puta freia em cima e quase a atropela. Ela atravessa a rua sozinha e eu xingo o motorista.

Não se passa muito tempo sem ver alguém fazer uma merda em São Paulo.

São Paulo, 23 de novembro de 2013, 7 da manhã

“Eu vou matar meu compadre”. São as palavras que pronuncio ao tocar o despertador. Depois de uma semana cansativa de trabalho, tudo o que se quer é acordar por volta do meio-dia. Mas meu compadre é aquele tipo de sujeito que praticamente lhe obriga a sair de casa e ver o jogo do Sport. Nem que seja em Varginha, a mais de 300 km de distância.

Mas tudo o que eu queria mesmo era dormir até umas oito da noite, quando o jogo já tivesse acabado.

São Paulo, 22 de novembro de 2013, não lembro que horas

Através de uma rede social, um músico camarada lá do Recife que está em São Paulo me chama para ver o jogo em algum bar no dia seguinte. Respondo que vou sacrificar uma manada de cordeiros em nome de minha sanidade e não vou assistir.

Momentos depois, o compadre telefona. Terei de acordar às sete da manhã do sábado. E tomar chuva até o ponto de encontro para a saída até Varginha, terra do ET. O Google diz que o trajeto dura cerca de três horas. E eu acredito no Google. E em Lemmy Kilmister. E só.

São Paulo, 23 de novembro de 2013, 10 da manhã

Mais de 20 desequilibrados disfarçados de torcedores se acomodam em um micro-ônibus e caem na estrada a caminho de Varginha. Barulho, birita e muita fuleiragem. Todo ser humano deveria ser obrigado, ao menos uma vez na vida, a viajar num esquema desses pra ver um jogo de futebol.

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Rodovia Fernão Dias, 23 de novembro de 2013, por volta do meio-dia

Em uma parada num posto de gasolina, vi que havia um balanço abandonado. Fui brincar e claro que bateram foto. Saí ridículo na imagem. Tô nem aí.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 14:20

Chegamos ao estádio, compramos ingressos a dez reais, olhamos os arredores. Um carro passa na estrada e o ocupante do banco do passageiro solta um “Vou matar um torcedor do Sport”, acompanhando do famoso gesto com o polegar para cima e o indicador para a frente.

Os idiotas, eles estão em todo o lugar.

Respondo às boas-vindas com um joinha. ET que ladra não morde.

São Paulo, 24 de novembro de 2013, 17:30

Estou tentando escrever o texto, mas cada vez que tento digitar, me volta a lembrança da maldita dor de cabeça que me atormentou desde que entrei no Estádio do Melão, em Varginha. Tá foda.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 17:38

Marcos Aurélio fez um golaço e correu para comemorar com a torcida. Apareci no canto esquerdo do quadro na transmissão da TV. Começamos bem a fazer nossa parte.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 18:15

O jogo está no intervalo e estamos vencendo por 3 x 0. Tem algo errado nisso. Vai acontecer alguma merda, com certeza.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 18:27

O repórter à beira do campo nos avisa que a Chapecoense está vencendo o Icasa e falta um minuto pro jogo lá em Juazeiro acabar. Esse resultado combinado a nossa vitória garante a volta à primeira divisão. A torcida começa a fazer contagem regressiva. Fico puto. Não se faz festa antes do apito final. Acaba o jogo em Juazeiro. A torcida comemora. O Sport toma um gol. Começa a chover. Lá vem a lembrança de dois anos antes, no Serra Dourada. Foi só um lapso de atenção, vai dar tudo certo.

São Paulo, 24 de novembro de 2013, 01:50

Chegamos de volta a São Paulo com duas horas de atraso em relação ao horário previsto.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 18:42

Claro que o time que adora complicar a própria vida toma o segundo gol e transforma a farra em tormento. A chuva aumenta. A cabeça dói. Acaba essa porra desse jogo.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 20:10

Caímos de volta na estrada, após uma rápida comemoração na saída do estádio. O motorista pega o sentido oposto por mais de 50 km. Se alguém não desse conta, poderíamos ter acordado em Belo Horizonte ou Salvador, vai saber.

Curitiba, 24 de novembro de 2013, 18:56

O time mais inútil do universo conhecido apanha de 6 x 1 do Atlético Paranaense. Hexa é luxo.

Varginha, 23 de novembro de 2013, 19:22

Acabou o jogo. Vencemos e estamos de volta à primeira divisão. Terceiro acesso em sete anos. Chega, né? Vamos ficar ao menos umas dez ou quinze temporadas sem ser rebaixados, que tal?

São Paulo, 24 de novembro de 2013, 02:37

Lar, doce lar. Já estava com saudades.

Rodovia Fernão Dias, 24 de novembro de 2013, 00:20

Nosso micro-ônibus emparelha com o ônibus do Sport. Ultrapassamos, fomos ultrapassados de volta, ultrapassamos de novo, fomos ultrapassados de volta. Festa lá, festa cá.

Recife, 23 de novembro de 2013, 18:45 (horário local)

Tem um grupo de torcedores do Sport bebendo pesado em um bar no bairro do Derby. Em outros bares também. Em outros bairros, idem. Pense na cachaça.

São Luís, 24 de novembro de 2013, 17:59 (horário local)

A namoradinha do Brasil, o time da torcida que comemora retorno à Série B (quando o correto seria celebrar a saída de lá), segura o 0 x 0 contra o poderoso Sampaio Correia e adia a festa pelo vice-campeonato da Série C.

São Paulo, 25 de novembro de 2013, 00:40

Vou escrevendo as últimas linhas deste texto não-recomendado para portadores de dislexia ou TDA. Ainda falta uma rodada para acabar a Série B e não tem como o Sport sair da terceira colocação. Subimos como campeões em 1990, vice em 2006 e quarto em 2011. Ou seja, completamos os quatro ciclos do inferno da segunda divisão.

Ou seja, está na cara que a partida contra o Paysandu no sábado seguinte será a última da história a envolver o Sport Club do Recife pela Série B do Campeonato Brasileiro. Há quem fale em se vingar do time paraense e de seu lateral com nome de personagem de desenho animado japonês que andaram aprontando contra nós em tempos recentes.

Eu, sinceramente, tô cagando pra Paysandu, Pikachu e todas as rimas e piadas que os referidos termos proporcionam. Também não estou nem aí pro Sport.

Ao menos até a bola rolar em 2014.

We’re back, motherfuckers!

Qual Diego?

01/11 Nenhum Comentário

Maradona.lo

* por Diego Albuquerque

Seguinte, conheço o jogador Diego Costa por conta do Championship Manager, um jogo de computador em que você é o técnico do time. Se não fosse isso, não conheceria o jogador. Estava procurando informações sobre ele e vi que esta é a primeira temporada em que ele marca mais de 10 gols, ou seja, não é lá essas coisas todas! Eu sei, vocês podem dizer que futebol é momento, mas acho isso de uma ingenuidade enorme, já que Pato ainda é nome falado na seleção e Walter, ou Éderson – artilheiro do Brasileirão deste ano –  não são.

O lance é que nasce um camisa 9 no Brasil todo dia, nesta fase ruim em que o futebol brasileiro está passando para centroavantes, penso em pelo menos cinco jogadores melhores que o Diego Costa para a posição. Possivelmente ele tem a mesma linha de pensamento que eu. Por isso prefere jogar pela Fúria,  pois lá  tem chances de ser titular de uma copa do mundo em seu país, sendo destaque numa seleção favorita ao titulo.

Não entendo a revolta de alguns brasileiros com o fato do jogador preferir atuar por outra seleção, fato corriqueiro e que já irá trazer diversos brasileiros para a copa em outras seleções. Para mim, Diego Costa está agindo com enorme razão e fazendo o certo para a sua carreira, pois – segundo o mesmo – a Espanha deu todas as chances para o futebol dele aparecer. Sem contar que Luis Felipe Scolari já deixou claro que Fred é o titular da posição.

Caro torcedor, vivemos reclamando que a CBF é mafiosa, que jogadores são indicados para seleção mesmo sem ter nível ou estar jogando bola para isso, mais uma vez usarei Alexandre Pato como exemplo disso.  Vocês realmente iriam querer entrar nisso?! O próprio Felipão já puxou jogadores brasileiros para outras seleções, um exemplo é o zagueiro Pepe, que joga pela seleção portuguesa desde os tempos em que ele foi técnico por lá. Se ele um dia já incentivou jogadores a trocarem de nacionalidade, por que Del Bosque não poderia fazer o mesmo?

Fico imaginando Diego aceitando jogar pelo Brasil e nem conseguindo entrar no grupo que irá para a copa do ano. Caso entrasse, jogaria um jogo, contra um time inferior e quando tudo estivesse resolvido. Ou seja, não teria nenhuma importância, diferentemente na Espanha, onde as chances de protagonismo são maiores.

Sinceramente, a expressão “furacão em copo d´água” parece bem pertinente para tal situação, afinal, estamos falando de Diego Costa ou Maradona?

* Diego Albuquerque é res­pon­sá­vel pelos sites de música Hominis Canidae e Altnewspaper

O brasileiro paraguaio

30/10 Nenhum Comentário

14092013---o-brasileiro-diego-costa-corre-para-o-abraco-apos-marcar-pelo-atletico-de-madrid-durante-o-campeonato-espanhol-1379177351912_1920x1080

* por Yuri Ribeiro

Acaba a Copa de 2002. Brasil pentacampeão e sobre os ombros de Scolari uma enorme pressão para continuar à frente da seleção, a qual assumira um ano antes. Optou por não continuar.

Começa 2003 e Felipão assume a seleção portuguesa. Nenhum xingamento ou questionamento por parte dos brasileiros. Pelo contrário, rolou até torcida para que conquistasse a Eurocopa, em 2004, e que conseguisse passar à final da Copa do Mundo de 2006.

Nesse período, o bigodudo – que jamais foi chamado de traidor – convenceu Deco e Pepe a defenderem a seleção portuguesa. Dois brasileiros, assim como centenas, vestindo a camisa de outra seleção. Sob orientação/pedido do treinador. Os dois jogadores, diga-se, nunca foram questionados por terem aceitado.

Aí pulamos para 2013 e de repente vemos a imprensa brasileira dizendo que Diego Costa, “o artilheiro do Campeonato Espanhol, à frente de Cristiano Ronaldo e Messi, pode defender a seleção espanhola”. O assunto fica cada vez mais repetitivo e, de certa forma, começa uma pressão em cima de Felipão.

Se ele não convoca e o cara joga pela Espanha, a culpa cairia sobre ele. Sem dúvidas. O que fazer então? Convoca o cara às pressas, mesmo fora do período, para afirmar o desejo de tê-lo. Isso na teoria. Na prática, o desejo desde o começo era tirá-lo da Fúria. Só.

Ninguém nunca tinha ouvido falar em Diego Costa, assim como os outros brasileiros que defendem seleções estrangeiras. Nesta temporada, ele começou a jogar a bola e deu-se início a uma cobrança exacerbada pela sua convocação. Mesmo assim, quem ia sempre era um Pato da vida.

Em março foi chamado para dois amistosos, onde pouco pode mostrar. Parecia mais aquelas convocações de Mano Menezes, trazendo jogadores da Ucrânia, sem muita perspectiva.

O atacante optou pela Espanha, e como era esperado, está sendo criticado pelos brasileiros que nem davam bola pra ele. Se tornou um vilão e virá disputar a Copa – sim, essa escolha deve ter por trás a garantia de estar entre os 23 escolhidos de Del Bosque – sob pressão. Pelo menos vem.

A CBF, por sua vez, entrou num clima de baixaria futebolística e promete recorrer, afirmando que a escolha está atrelada a dinheiro – tão repudiado pelos cartolas que lá estão –, numa tentativa de tirá-lo da Fúria. Dificilmente conseguirá. Só vai inflamar ainda mais o ódio que os brasileiros criaram pelo cara.

Acho que os argumentos de Diego foram bem válidos. Como outros jogadores tupiniquins, não teve vez no seu país e conseguiu despontar lá fora. Sua vida mudou na Europa e não há nada de errado em defender o país que o acolheu e deu oportunidades. Já que a Fifa permite, qual o problema?

Se o brasileiro fosse justo – ok, é pedir demais – consideraria esse caso como um outro qualquer. Nunca houve implicância com Deco ou Felipão pelas suas escolhas em defender Portugal, pro exemplo, e seria injusto demais fazer isso com o atacante do Atletico de Madrid.

Diego fez certo. Muito certo. Se optasse pela Canarinha, era muito provável que na convocação para a Copa, ele pagasse o Pato.

Yuri Ribeiro escreve durante o dia para o FDB. À noite sai pra conhe­cer bares e falar sobre eles no blog Guia do Boêmio

Sobre Lênin, imperialismo & Fair Play

22/10 Nenhum Comentário

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* Pedro Leal

Segundo Lênin, o imperialismo é o grau superior do desenvolvimento do capitalismo, precisamente o grau em que a livre concorrência foi substituída pelo monopólio.

Na era da globalização, a potência imperialista, FIFA, claramente vem tentando monopolizar o futebol como lhe convém, acabando com a livre concorrência dos padrões de jogo e os folclores boleiros de cada país. E a expressão máxima desse assassinato às individualidades chama-se Fair Play.

No Brasil, há um tempo ainda não muito distante, a irreverência era a marca registrada do nosso estilo de jogo: jogadas individuais, dribles, Dadás Maravilha, Romários, Edmundos, Edílsons & Paulos Nunes, estádios abarrotados, regados sempre a muita cerveja.

Veio então o auge da globalização e com ele as normas de segurança nos estádios, as punições severas ao anti-jogo, a padronização das entrevistas e dos esquemas táticos. É a cultura Fair Play inundando as mais longínquas canchas do planeta bola.

O 4-4-2, com variações ao 4-3-1-2 ou 4-3-3 do Barcelona, trouxeram ao mundo o futebol pós-moderno. O célebre tic-taca se tornou o orgasmo desse novo momento. A “guardiolização” do futebol logo se espalhou, bonita, chata… E lá vai ela atazanar a liga alemã e lá vem ela para o Brasil.

O tic-taca da oratória

Aqui, o “com certeza” e “o importante são os 3 pontos” são as frases preferidas dos boleiros, de bolsos cheios e pés vazios, é o tic-taca na oratória. E os polêmicos? Aqueles caras que nos faziam esperar a entrevista depois do jogo, aquele bate-boca no campo, no programa do domingo à noite? Esses são hostilizados pela mídia, sua vida noturna é manchete diária.

Nos sobram os chatos, os comportados, os normais.

Os estádios já nem enchem mais, talvez porque nas quatro linhas o espetáculo não encha mais os olhos. O futebol não é mais o mesmo. O torcedor que o vê, sentado, tão pouco.

Espero ansioso pelos libertadores, que salvarão nossa pátria –  ou melhor – nossas táticas e tudo que nos é peculiar em termos futebolísticos.

Romariemos o futebol!

A cultura Fair Play não há de triunfar! Ou há?

* Pedro Leal nasceu em Surubim – interior de Pernambuco – e torce pelo Náutico.

¿Hablas pernambuquês?

20/08 Nenhum Comentário

Índice

* por Yuri Ribeiro

É coisa rara no futebol pernambucano um clube disputar um torneio internacional. A última vez que isso aconteceu não tem tanto tempo, foi há quatro anos quando o Sport disputou a Libertadores após o título da Copa do Brasil.

Mas ano passado a CBF resolveu mudar os critérios de classificação para a Sul-Americana. Sem maiores explicações apenas avisou que quem avançasse às oitavas da Copa do Brasil, abriria vaga para quem estivesse na fila.

Seguindo esse critério, foram entrando times que tinham subido da B pra A e, na sequência, os que tinham sido rebaixados. E eis que o Sport conseguiu a última vaga. E vai enfrentar o seu rival histórico, o Náutico.

O terceiro clássico mais antigo do país vai ser disputado pela primeira vez em um torneio internacional. Um tempero e tanto para esse jogo entre dois times que vivem momentos diferentes no Campeonato Brasileiro.

O Náutico está na Série A, porém amarga a lanterna do campeonato. O Sport está no G-4 da Série B, mas não tem passado tanta segurança assim.

Às vésperas de um clássico, como era de se esperar, cada um que jogue a responsabilidade para o outro. Dirigentes do Náutico dizem que o Sport é favorito devido ao momento. Dirigentes do Sport dizem que o Náutico está na Série A e isso o torna favorito disparado.

Alguns tentam analisar o fator consequência. Se o Sport sair pode ser prejudicado na sequência do Brasileiro. Se o Náutico for eliminado sofrerá um baque moral, já que fez campanha com o mote “Hablas espanhol?” festejando a classificação como uma exclusividade.

Os dois times têm poucas chances de almejarem vida longa na competição. Acredito, e isso é uma opinião pessoal, que a maior conquista pro Náutico na atual situação seria disputar uma partida internacional e dar pelo menos um motivo de alegria ao seu torcedor nesse momento crítico do time. E para o Sport, que entrou de sopetão no torneio, acabar com esse desejo do rival já seria suficiente, uma vez que o time também não tem condições de seguir adiante e a Série B está sendo bem puxada.

Mas, independente das consequências para cada lado, o Estado se prepara para ver um dos melhores clássicos dos últimos tempos. Isso, com times ruins e tudo. A importância do jogo vai dar um gás dos dois lados e as torcidas provavelmente vão ser presenteadas com jogos disputados.

Provavelmente teremos duas partidas com estádios lotados. E um atrativo a mais que será o primeiro clássico da Arena PE, onde o Náutico está mandando seus jogos.

Na próxima quarta saberemos quem vai avançar no módulo do espanhol e quem vai ficar no pernambuquês. Apenas uma coisa é certa: os torcedores derrotados irão sofrer bastante.

Yuri Ribeiro escreve durante o dia para o FDB. À noite sai pra conhe­cer bares e falar sobre eles no blog Guia do Boêmio

Ídolos de pedra não saltam

14/08 Nenhum Comentário

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 * por Carlos Gomes

Ninguém é maior que o clube. Nenhum jogador é insubstituível. Essas são sentenças comuns ao futebol, fazem parte de seu vocabulário. Quando a experiência de um grande jogador começa a se transformar em autoritarismo perante os outros atletas – como se o tempo autorizasse o jogador a se sobrepor indiscriminadamente sobre os outros –, vários problemas começarão a aparecer. No entanto, todos eles serão filtrados pela boca miúda de quem não quer ficar mal com o gigante do passado. Desse modo, o que fazer com uma estátua – a quem se deve reverência por seus feitos – que insiste em permanecer sob a baliza? O que fazer com a empáfia de um presidente que ninguém mais leva a sério?

O São Paulo F.C. está numa encruzilhada.

As falhas recorrentes da última gestão do presidente Juvenal Juvêncio, do São Paulo, aliadas aos seus discursos tragicômicos, que só aumentam o descrédito em relação a mudanças mais profundas, não encobrem o fato de que um dos maiores ídolos do clube não consegue desempenhar, nem de perto, o futebol que o levou a essa condição. Mais do que as falhas ou deficiências técnicas dentro de campo, o que mais me assusta em relação ao goleiro Rogério Ceni é o seu discurso. O que se espera de um capitão e ídolo, num momento de turbulência? Acalmar os ânimos com serenidade e paciência; mas, assim como o seu parceiro, Juvenal Juvêncio, ambos, semana após semana, fazem o grande favor de piorar a situação.

Ceni e Juvêncio estão cada vez mais parecidos. Não admitem os próprios erros, quando a raridade do tempo os obriga a fazer, é preciso decifrar entre as milhares de palavras, duas ou três que admitam alguma culpa. No entanto, quando o erro – de que tipo seja – ocorre com o companheiro, a ladainha autoritária rapidamente toma o controle. Quem sempre perderá com isso é o clube, atualmente, refém de seu passado, o aclamado e exaltado passado glorioso.

Enquanto o goleiro e seu presidente continuarem passando ao largo das críticas internas do clube, pouca coisa de fato mudará. O que menos o clube precisa, nesse momento, é de ídolos de pedra para se reverenciar, e sim de mobilidade, ação, atitudes. A pior coisa que pode acontecer para o São Paulo é o rebaixamento. Alguém imagina maneira pior que essa para Ceni encerrar a sua carreira? Sendo rebaixado, quem duvida que o goleiro ainda queira permanecer no gol por mais um ano para colocar o clube de volta à elite? Assim sendo, quem terá força e coragem para retirar a estátua de baixo das traves e pô-la em seu devido lugar?

Carlos Gomes é edi­tor do Outros Críticos, dile­tante em música, poe­sia, fic­ções e letras.

 

Rogério Ceni – O poderoso goleirão

08/08 Nenhum Comentário

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* por Yuri Ribeiro

O novo reforço do São Paulo chega e logo é levado ao vestiário. Lá ele é apresentado a todo o elenco e após cumprimentar cada um com um singelo aperto de mão, recomendam-no beijar a mão d’O Poderoso Chefão.

Na hora só se lembra do filme e questiona os diretores se é uma ação de marketing, enquanto procura pelas câmeras.

Nada.

Todos se entreolham até que ele se dá conta que faltou um. O goleiro careca, conhecido no clube como Rogério Corleone.

Não tendo outra opção, se aproxima e faz o que lhe foi recomendado. Meio sem jeito, é verdade. Dá uma risadinha na tentativa de descontrair, mas ninguém ali vê graça.

Tudo é sério. Muito sério.

A única coisa que ouve de volta é “se quer se dar bem aqui, é preciso me respeitar. Não quero dinheiro, quero apenas bajulação em troca da sua sobrevivência. Babe meu ovo e ninguém irá lhe tratar mal”.

Mais uma risadinha e nada em troca. A parada era séria e começou a assustar. Mas quem é o jovem jogador para questionar e perder essa oportunidade.

Mais algumas dias e viu que não era exclusividade sua. Todos, inclusive o treinador, que lá cumpre o papel de consegliere, o tratam como um Deus, um salvador.

Atônito, o novo craque apenas se pergunta “que porra é essa?”.

Tenta tocar no assunto com um companheiro ou outro, mas sempre ouve conselhos que envolvem pontos como sobrevivência. Dentro do clube? Não, no mundo mesmo.

Sem conseguir segurar a angústia, correu até o treinador e desabafou.

- Não vim aqui pra ser baba ovo. Vim aqui pra jogar.

- Shiiiii. Fala baixo, rapaz.

- Tá vendo? Até o senhor tem medo…

- Me chame de você. Senhor é ele.

- Por que esse medo todo, professor?

- Medo? Quem tá com medo? Isso é respeito, jovem.

- Respeitar por quê? O cara nem agarrar sabe e quer mandar no clube.

E assim a jovem promessa foi parar num time do interior do Amazonas, a fim de sobreviver.

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Yuri Ribeiro escreve durante o dia para o FDB. À noite sai pra conhe­cer bares e falar sobre eles no blog Guia do Boêmio

- Hola, Luis?

03/08 Nenhum Comentário
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* por Paulo Oliveira
21h26 de ontem, a cabeça ainda retinindo após a goleada sofrida mais cedo, o presidente do Santos Futebol Clube, o Laor – encharcado de uísque catalão barato -, recebe uma ligação de número local em seu quarto de hotel.

- Hola, Luis? Buenas noches.
- …
- …

- Buen…

- Luis? Sandro Rosell.

- Put… – e afastou o telefone da boca para completar sua indignação.

- Luis?

- Habla.

- Como estás?

- Tô bien, tô bien – e suspira fundo.

- Mira, te llamo para fijar una fecha para el próximo partido…

- Put… – e afastou o telefone novamente, num riso nervoso acerca da própria desgraça.

- Hola, Luis?

- Hola, Sandro. Er… deixa eu te hablar una cosa: esquece lo próxima partido. Puede ser? No te incomodes. Santos es muy longe, teus jugadores chegarón cansados, no vale la pena.

- Pero el contracto…

- Esquece el contrato. De buena, tá tudo cierto. Fica en la paz.

- Pero que Neymar…

- El garoto está bien encaminhado. Deixa ele seguir su caminho, pelota pra friente. De acuerdo?

- Pero y la multa…

- Esquienta não, Sandro. Vamos hacer de cuenta que nunca existiu. Abrazo!

- Si, si… er… como no… hasta lluego, entonces. Grac…
- Hablou!
Clic.

Fim da ligação.

* Paulo Oliveira não assiste fute­bol na tv, só lê as rese­nhas dos sites e acha que sabe alguma coisa do assunto

Futebol, números e identidade

02/08 Nenhum Comentário

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* por Geison Almeida

Antes de iniciar essas linhas, me vem à mente uma pergunta: Por que escrever sobre seu time, diante de tantas outras palavras que já foram tão bem escritas e que já definem o seu sentimento? A resposta eu não sei, mas espero esboçar, mesmo que de forma repetida esse ímpeto de dizer.

Cada definição do que é ser atleticano soa em meus ouvidos como uma verdade absoluta, a qual é difícil negar, ou simplesmente ser original. Não há como ser original, sobretudo, com a fatal condição: “Uma vez até morrer”. Ser inovador, seria como não ser.

Estar diante da tempestade e não torcer contra o vento, acreditando que um dia ele sopraria ao nosso nosso favor aos 48 minutos do segundo tempo, retirando o peso da bola, colocando-a nos pés de nosso goleiro, seria o mesmo que retirar a camisa do varal. Nunca a retiramos do varal, ela resiste aos dilúvios e naufrágios como marca de resistência. Como não acreditar que seu canto, sua prece, não são ingredientes fundamentais para a vitória de seu clube? Não dá… Não dá, “porque aqui é Galo, Porra!!!!”

O atleticano nasce com o peso da sua história, ora boa ora nem tanto. Pergunta a qualquer atleticano o que é ser atleticano. Ouvirá uma resposta apaixonada, que nenhum matemático de títulos saberá explicar. A identidade do atleticano não é feita por números, por mais que eles sejam parte de nossa existência, muito menos por comparação. Ela foi feita por crença, vontade e paixão. Pelo riso tolo nas vitórias e pelas dores nos tropeços. Quem tropeçou dessa vez foi o atacante paraguaio.

Rimos mais uma vez feito bobos e nosso choro não foi de dor. Não se quantifica o atleticano. Não se iguala o atleticano pelo número de taças. Contabilize o número de vezes que o coração dele bateu ao longo dessa história, sobretudo, daqueles corações que pararam contra o Newell’s old boys. Chegar-se-à talvez a uma ínfima mostra desse ser.

O atleticano não quer igualar a ninguém. Digo isso, diante das bravatas do adversário, que por ter uma identidade quantificável acredita, profundamente, que um dia será como nós. Não são duas, três, quinze ou mais; é “UMA vez até morrer”.

* Geison (obviamente) é atleticano e esse texto foi garimpado do perfil pessoal do mesmo no Facebook .