* por Carlos Gomes
A imprensa pernambucana, de um modo geral, esperou passivamente até que a insatisfação dos torcedores que foram à Arena Pernambuco acompanhar a Copa das Confederações batesse à sua porta como pauta.
Não era previsível que todos os problemas agora estampados nos jornais, blogs, sites e nas redes sociais tivesse uma enorme chance de ocorrer? O papel da imprensa é meramente o da “descrição imparcial” dos fatos? Onde fica a investigação? O que vi nos dias que antecederam ao jogo foi a FIFA e a SECOPA pautar todos os jornais com os procedimentos e caminhos que os torcedores deveriam seguir.
FIFA, Governo do Estado de Pernambuco, SECOPA e suas cartilhas de conduta evidenciaram que o papel dos torcedores, na opinião deles, deve ficar restrito a seguir as ordens. O transporte caótico até São Lourenço da Mata também revela o modo irracional como o transporte público é tratado, não só em Pernambuco, mas em todo o país.
As diversas manifestações de ontem têm como ponto de partida esse tema, mas pela heterogeneidade das pessoas presentes nas ruas dos grandes centros, a pauta se ampliou para diversos caminhos.
Por estarmos no meio de uma competição organizada pela FIFA, a um ano da Copa do Mundo, e por todos os problemas de mobilidade urbana que ficaram à margem dos gastos para a construção e “reforma” de estádios, ou como querem vender, arenas; a felicidade de ver a seleção da Espanha diante dos olhos contrasta com a tristeza que é a imoralidade em torno da Copa do Mundo no Brasil.
Os mesmos torcedores que gritaram olé na Arena Pernambuco tiveram fôlego para gritar Vergonha! Vergonha! nas vielas da Estação Cosme e Damião. Pior que as condições de acesso, são as desculpas e considerações da SECOPA, CBTU e Grande Recife.
Não vou cansá-los com as palavras inúteis e descabidas deles, os jornais são melhores em pôr aspas sobres falas e ficar em silêncio no momento em que deveriam refletir sobre os acontecimentos e discutir criticamente a situação.A dissimulação é uma maneira esperta de dizer: estamos dos dois lados.
Recife ainda receberá dois jogos da Copa das Confederações, um deles será já amanhã, entre Itália e Japão, e na quinta-feira uma manifestação mobilizará um número grande de pessoas, não para gritar olé ou aplaudir o futebol das seleções estrangeiras.
Movimento necessário contra as cartilhas e imposições de um grupo muito pequeno com o poder nas mãos. Os gritos serão ecos para reverberar tudo o que está à volta. Ou como canta o hino pernambucano, usado por mim também como subtítulo desse texto: “Do futuro és a crença, a esperança, desse povo que altivo descansa como o atleta depois de lutar…”.
Não será nem hora para descansar ou ser Nova Roma ou Novo Recife, ser Recife sem adjetivos, mais atento a ocupar a rua, os espaços e vias públicas, não pela força imposta de cima, mas pela necessidade de mantermos a cidade viva.
* Carlos Gomes é editor do Outros Críticos, diletante em música, poesia, ficções e letras.










